JUDAÍSMO E IDENTIDADE NA LITERATURA DE CORDEL

 

Suzi Frankl Sperber - UNICAMP

 

 

É preciso levar em conta que a definição de 'identidade' de um povo, ou grupo humano, pode advir de intenções tanto externas, como internas ao grupo em questão. Quando externas, tende a ideologizar, atribuindo ao outro características que o 'estudioso' considera não ter, por ser tão esperto que discerne o outro, sendo-lhe superior. O olhar externo se separa nitidamente do objeto de seu estudo. A identidade em geral negativa é do outro e corresponde ao que eu não sou. Esta concepção assimétrica fecha o outro em amarras estigmatizadoras que podem ser incorporadas por este outro, como nos processos extremos de tortura, em que o torturado assume, ou pode assumir a identidade que lhe está sendo impingida. Aí pode transformar-se em conceito da própria identidade, por assimilação. Nestes casos o conceito de identidade se opõe radicalmente ao de liberdade – e de livre-arbítrio. A diferença não é contemplada, ou o diferente é automaticamente encaixado dentro dos rótulos cômodos que antes de mais nada o excluem do convívio com os demais. O olhar interno, nestes casos, manifesta-se no não-dito, em entrelinhas que denunciam a imagem negativa que o estigmatizado assimilou da crítica do outro, que se manifesta pelo não: o erro, a incapacidade para a ação, já que o estigma costuma ser imobilizante, em verdade fenômeno do medo de ser.

A outra possibilidade de rotulação vem do olhar interno. O estopim da dúvida e a necessidade de uma definição da identidade decorrem de processos de exclusão. O excluído se vê não como inferior, mas como superior. Ele se exclui do mesmo modo, mas por outros motivos, ou com outros argumentos. Isto sucedeu com o povo judeu, que se vê como povo eleito por Deus, aceitando sua sina e trajetória como marca do mérito, da diferença que enaltece. Ser excluído representa que está sendo reconhecida a identidade deste excluído enquanto tal. A sua história o prova, e por isto precisa ser preservada. Por isto, também, ser excluído, neste caso, é aceito como reflexo desta história e como estigma positivo. É um sinal positivo com respeito à busca de uma identidade ou pertença, mesmo que a identidade seja negativa. Enquanto mecanismo da diferença, importante, para o excluído, é ter consciência de pertença a um grupo e empenhar-se por apresentar e difundir a sua sabedoria, que está na dialética entre manutenção e um movimento de superação da História. É a reunião de aspectos contrários dos mecanismos ligados à identidade judaica – ou do excluído – em uma dialética que não procure uma saída (como o repete o macaco que fala à academia, de Kafka), mas a manutenção da liberdade, que olha para trás e para a frente, a fim de preservar o equilíbrio, sem apagar a História.

O conceito de identidade, construído até certo ponto sobre mitos de origem, é o mais das vezes imóvel, estático. Apresenta-se como o que é, imutável por natureza, através do espaço e dos tempos. O conceito de liberdade pressupõe processo, movimento. Um, pretende definir o que é – a rigor, o que foi. O outro está sendo, sem tempo de se definir. A idéia de identidade é uma necessidade que tem estado fora do indivíduo ou grupo, que reconhece a sua pertença, sem definições ou conceitos, que simplesmente é, sem necessidade de provas. A necessidade de definição é inquieta e provém da não aceitação da pertença.

É verdade que há uma necessidade imperiosa de reconhecimento e aceitação do ser humano pelo outro, para existir. Quando o indivíduo nega a sua pertença mais óbvia, ou quando o seu grupo familiar camufla a sua pertença, por diversas razões, ou tem uma pertença mista, de níveis e origens diferentes, portanto quando há mistério ou mistura, surgem situações que podem ser angustiantes de busca de identidade, isto é, de desbastamento da pluralidade de origens e níveis, para finalmente entender-se como partícipe de um grupo, aceito por ele. Perder a identidade equivale a perder a própria sombra, tematizada em relato infantil e contos populares. A diferença é que aí, o conceito de identidade se apresenta como necessidade e definição pessoais, decorrentes da outra necessidade de ser aceito pelo grupo eleito. No caso do excluído, sua 'identidade' é definida pelos outros, pelos que o excluem: não é busca pessoal. É outorga – à revelia. Outro caso é o do compromisso, em que o indivíduo abotoa a máscara requerida para compactuar com um grupo a fim ser por ele aceito.

Em qualquer destes casos, delineia-se um conceito de identidade feito por desbaste de uma pluralidade, realizado pelo próprio interessado, com função inclusiva, ou pelo outro, com função excludente. Nestes casos são conservados ou mesmo inventados traços que servem para compor uma mitologia – que corresponde a uma 'persona'.

A noção de identidade verdadeira não é um constructo montado sobre uma mitologia. Admite e requer liberdade. As pessoas mais verdadeiras, e que mais procuram o seu cerne, mais se enquadram nesta última busca de identidade, que se manifesta sempre enquanto busca, justamente porque se trata de um processo e que é feita de pluralidade e diferença.

O caso da identidade do judeu é em certo modo particular e extremo, porque nos momentos de crise foi ameaçada a sua vida e a de seus familiares. Ele precisou fingir-se de não judeu para preservar a vida, encontrando mil formas de fazê-lo, ao mesmo tempo que conservava viva, em muitos casos, a sua verdadeira identidade judaica. Assim é que este povo, encurralado e mesmo dizimado, tem mais de 2.000 anos de existência. Ele se reconhece judeu apesar dos tempos, apesar de sua origem não ser obrigatoriamente 100% judaica, ou apesar de não ser visto como judeu pelas leis judaicas.

Há legislações e histórias diferentes a definir a origem e a pertença. Freqüentemente, quando o conceito de identidade é aplicado a uma nação, envolve pertença a uma unidade política. O povo judeu não tinha um território, e mesmo hoje, tendo, judeu não é aquele que nasceu ou vive em Israel, mas algo diferente. Independente de uma pertença a uma terra ou a uma unidade política, o judeu se define como pertencente a uma história.

O judeu precisou reconhecer-se como judeu para preservar a história de um povo. Do ponto de vista da História, o procedimento é sábio, ainda que inconsciente, porque transforma a vida em documento e considera a ficção como testemunho, validando a experiência individual, ao contrário de certas tendências atuais da História – especificamente do revisionismo histórico – que não reconhece no testemunho e na experiência vivida valor documental. Aliás, esta tendência atual da História também não reconhece o valor documental da ficção, mas tão somente o valor dos documentos oficiais. A manutenção da memória desta história supre a eventual aniquilação de documentos, ou resgata documentos perdidos, impedindo que se apague isto que é o construtor da identidade judaica: a sua história de perseguições e lutas, verdadeira saga.

            Empreendi a leitura de folhetos de cordel para verificar qual seria a identidade atribuída ao judeu no Brasil. O exame deste material poderá ajudar a entender, talvez, tanto a questão da identidade em si, como a imagem do judeu no Brasil. A literatura de cordel oferece a vantagem de ser um produto popular, composto por gente apenas alfabetizada e com parcas leituras. Por isto estes poemas – sempre rimados, mas que contam estórias e muito raramente são verdadeiramente líricos – são menos autocensurados que o produto cultural de um erudito. Sendo uma manifestação do povo, podem refletir mais explicitamente conceitos e preconceitos acerca do outro, no caso, especificamente do judeu.

            Tinha duas hipóteses formuladas na entrada deste estudo. Desejava ver se a visão paradisíaca do Brasil (que invadiu tanto o imaginário europeu no passado, ou o de exilados cristãos novos ou judeus – encontrando-se, neste século, no livro de Stefan Zweig escrito no Brasil e cuja primeira edição foi em 1941 (Brasilien. Ein Land der Zukunft[1]) – e que marcou a consciência de brasileiro e sua identidade pelo menos até o início do século, ou até mesmo à Segunda Guerra Mundial) é encontrável num tipo de produto cultural menos censurado, como o da literatura de cordel. Observe-se que hipoteticamente, a idéia funcionaria. É que a visão paradisíaca pode projetar para o futuro a realização dos anseios do presente. Pelo menos o slogan "Brasil, país do futuro' pode ter um pé nesta esperança de realização sempre projetada para a frente, sempre adiada. É – ou foi – falta de consciência do subdesenvolvimento, ou insatisfação com a própria identidade de brasileiro, criada em cima da imagem que o outro tinha do Brasil, por um lado, e ainda em cima da inveja do estrangeiro metropolitano, da insatisfação com a própria realidade? Num segundo momento, ao empreender a leitura de literatura de cordel, esperava ver traços de medo, de dissimulação dentre os primeiros portugueses vindos para o Brasil, quando vieram contingentes de cristãos novos, ou judeus conversos – os chamados marranos – punidos com exílio por heresia, como consta de legislação já apresentada em texto anterior.

            Com a ênfase dada à questão da identidade, pergunto à literatura de cordel escrita e lida até o presente, que imagem ela dá de judeu e que conclusões podemos tirar das características levantadas.

Por enquanto li aproximadamente 300 folhetos de cordel. É parte da coleção que se encontra no CEDAE, Centro de Documentação Alexandre Eulálio. O CEDAE encontra-se no Instituto de Estudos da Linguagem – UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas).

            Os folhetos de cordel aos quais tive acesso são todos deste século. Claro que muitos não têm indicação nenhuma referente ao modo de produção, nem cidade, nem casa editora, nem data. Dentre aqueles que têm data, a quase totalidade foi produzida a partir da década de 60, alguns poucos na década de 50 e apenas 3 (três) antes da década de 50 (1924, 1926, 1940). Também li alguns estudos sobre os judeus no Brasil[2], assim como sobre cordel, que referem outros folhetos, ou bem outros textos do populário, tal como estudo sobre a tradição da queimação do Judas no sábado de Aleluia.

            Como os folhetos aos quais tive acesso até o momento são todos bastante recentes, evidentemente a magna questão judaica do período colonial brasileiro, mormente dos séculos XVI e XVII, período diretamente afetado pela Inquisição, está distante na sua temática e tratamento. Portanto, os aspectos que consegui detectar são residuais.

            Dentre os textos com os quais trabalhei – posteriores ao período da Segunda Guerra Mundial, em que poderia ter havido acirramento de anti-semitismo, por um lado, e medo dele, ou, ao contrário, tomada de consciência de uma identidade, por outro – somente aproximadamente 25% dos casos têm alguma referência (direta ou indireta) a aspectos judaizantes. Neles vi casos em que o poeta, ou o narrador, reconhece a diferença (de identidade), com menção específica a alguma referência da história judaica, com valoração positiva, ou negativa da diferença. Portanto, a marca mais evidente da identidade é a diferença, ou então o esforço por borrar a diferença, apresentando-se como semelhante ao outro. A identidade social se apresenta em relação e não sozinha. No mais das vezes a identidade social contamina a identidade pessoal.

            Outro aspecto notado foi a confusão de categorias ou rótulos, na literatura de cordel, nos casos em que a diferença foi caracterizada negativamente. O diferente pode referir algum aspecto da história do Velho Testamento, que o qualificaria como judaizante. Mas existe o agrupamento de outras categorias desqualificadas pelo cantador (ou pela comunidade na qual ele se insere), como negro, protestante, materialista, comunista, ou anarquista, ou até mesmo ateu[3].

            Observa-se como o rótulo estigmatizador específico perdeu sua atualidade, apresentando-se como mero estigma – espaço em branco que pode ser preenchido por qualquer outra qualificação negativa num momento e espaço dados e, portanto, aplicado aos mais diferentes grupos humanos ou características que se quer estigmatizar. Donde se conclui que o mecanismo da atribuição de estigmas seria universal e de todos os tempos, repetindo-se, na História, mas sendo aplicada a seres ou grupos humanos muito diferentes entre si. Não é preciso ser judeu. Basta ser diferente. Ou basta que se queira discriminar o outro, tratando-o como diferente[4].

            A identidade definida em cima do sofrimento é mecanismo repetido mesmo diante de outros sofrimentos. Cria-se a família dos sofredores, numa espécie de solidariedade na condição semelhante. Corresponde a uma marca das definições de identidade dos fracos ou fragilizados, que se agrupam para ter a sensação do compartilhamento[5].

            Na literatura de cordel as marcas judaizantes estão muito diluídas enquanto costumes, rituais e fé religiosa. Por isto a fé aparece indiferenciada, sendo o deus também indiferenciado. De tão indiferenciados, pode ser criada como diferença o ateísmo[6].

            Encontrei sinais tidos equivocada e malignamente como judaizantes, semelhantes aos apresentados nos autos de Inquisição. Foi especificamente um caso no conjunto todo de textos lidos até o momento[7]. De qualquer forma, é notável que os argumentos para a incriminação, tão distantes no uso, ainda tenham força suficiente para aparecerem na literatura de cordel praticamente três séculos depois.

            A referência à Inquisição aparece como ameaça ao outro ou a si, emissor da fala, sempre como ameaça de ser lançado à fogueira. O medo de ser queimado vivo era tão grande e a ameaça tão absoluta, que bastavam meias palavras. O medo é insidioso e penetrante, corroendo identidades, ou a consciência dela, abrindo espaço para compromissos, a fim de salvar aquilo que há de mais precioso: a vida[8].

            Dentre os símbolos judaizantes aparece com certa freqüência a estrela de seis pontas, com valor negativo ou positivo, chamada de sinal de Salomão, ou sino Salomão, ou sino Saimão, podendo ser misturada a um símbolo religioso do catolicismo, como a cruz. Guimarães Rosa usa o 'sino Saimão' ou 'sino Salomão' em "O Recado do Morro", como símbolo e amuleto, revelando a sua penetração no imaginário e no quotidiano da população, e aí, no mais das vezes de forma positiva.

            O que não "é", isto é, o que não tem identidade, ou que não quer confessá-la, é o espírito do Mal – o diabo – aquele cujo nome não pode ser enunciado e que por isto tem muitos nomes: pai da mentira; o inimigo; bicho-preto; bode-preto, freqüentemente identificado ao judaísmo – ou que se identifica pessoalmente a ele. Na literatura de cordel, existe superposição entre preto, inimigo e judeu, sempre algo diluidamente.

            Em alguns casos, o judaísmo é visto como sinônimo de covardia, de pusilanimidade. Explica-se, uma vez que uma das perguntas feitas especificamente sobre a identidade judaica, é por que os judeus, sendo tantos, não se uniram contra os seus detratores e carrascos, e não se sublevaram?

            As informações sobre o Velho Testamento são imprecisas, resumindo-se freqüentemente à mera menção de nomes, misturados com outros de outras origens, não judaicas, nem católicas, o que se explica pela perda da tradição da prática dos rituais. No entanto, estes foram tão fortes, que mesmo em comunidades em que a consciência da identidade judaica se esvaiu, este conhecimento se mantém. Ele tem ou pode ter consciência de sua história e ao mesmo tempo pertence também a outra faceta da História, aparentemente a outra História. Ele tem aspectos particulares, familiares, coletivos e aí de diversas coletividades. Às vezes se tem a impressão de que a palavra 'judeu' aparece para rimar com palavras com a mesma terminação. Mas seria equívoco resumir as ocorrências e seu sentido à rima.

            Os aspectos encontrados na literatura de cordel, referentes à identidade e ao judaísmo, têm ingredientes que talvez sirvam para entender que pelo menos em parte as características do que seria a identidade do brasileiro se explicariam pela sua longínqua origem judaica, ou judaizante, por provir da imagem dos marranos no Brasil.

Com a vida ameaçada pela Inquisição, o marrano chega ao Brasil com uma dupla perspectiva: a de salvação e gratidão correspondente a escapar à perseguição e a de perda, separação, violência, correspondente ao exílio. O exílio pode acabar sendo visto como estigma, como marca de identidade, já que é correlato à idéia do judeu errante. Renovam-se a errância e a expectativa de chegar finalmente a uma Terra Prometida. A promessa se esvazia na medida em que os inquisidores vêm ao Brasil. Ele opta pelo compromisso exigido, a proscrição da fé judaica, e ingressa na fé católica. Escolhe profissões próprias do católico, com nomes que denunciam a origem judaica, mas que são um compromisso, visto que de família e tradição, o judeu não tem sobrenome: os indivíduos são conhecidos como filhos de, pelo designativo de filiação ben, tal como David ben Gurion, David filho de Gurion. Há os que ingressam na ordem dos jesuítas. Há estudos sobre o assunto. Em resumo, o cristão novo camufla sua velha fé, fingindo-se convertido, ou adere verdadeiramente a outra fé.

            Apesar de ingressar em outra fé religiosa, o judeu, por reconhecer-se partícipe de uma história de um povo que se declara eleito, tem um motivo de pertença ilustre, importante, do qual se orgulha, mesmo sendo católico, mesmo sendo santeiro, ou construtor de igrejas. Ele reconhece esta origem e pertença sempre que esta pode ser motivo de orgulho. Ele também aceita a pertença à negatividade relacionada à origem: aceita participar da história de perseguições, sofrimentos. É a solidariedade na dor e no destino. Ele não está só, nem é órfão. E tem ainda uma marca iniludível da identidade semita: a sensação de responsabilidade pelo seu próximo e pela coletividade, o povo eleito. Pois ele pode ser um dos 36 Zadikim, um dos 36 justos que não sabem se o são, mas que podem sê-lo e é graças a eles que o mundo se salva.

O marrano no Brasil acostuma-se a ter uma identidade feita de camadas diferentes e mesmo contraditórias: pertence a um povo na dor, pertença de história; pertence a uma nação, a um território: será brasileiro; pertence a uma religião – outra, diferente da do povo na dor, semelhante da do povo do solo, da terra, o que pode tanto ocorrer por conveniência e/ou medo, como por convicção: será católico, ou de qualquer outra religião, hoje em dia. Conforme a situação, conforme o grupo dentro do qual se encontra, se assimilará a uma destas camadas identificadoras, assumindo uma sobre-identidade por medo e por desejo de ser aceito pelo outro, que está no poder. O entrelaçamento entre judaísmo e catolicismo no Brasil, fertilizou o solo para o messianismo.

Pergunto-me se a capa de uma religiosidade que esconde outra não explicaria a observação de Sérgio Buarque de Hollanda sobre a identidade de pouca devoção dos brasileiros, referida no começo deste trabalho.

Uma parte dos marranos se salva e se acultura, subindo a postos e poder. Outra sucumbe. Outra sobrevive, mas passa por novas mestiçagens, transformando-se no chamado 'povo', gente pobre, excluída de bens de educação e de raiz, que acaba podendo chegar a cantador.

Na literatura de cordel, o cantador revela ter incorporado dois aspectos diametralmente opostos com respeito à imagem de judeu (ou perfil de sua identidade): o estigma, isto é o judeu como mau, e a pertença, a história judaica.

Na mistura de informações, nesta espécie de samba do crioulo doido da cultura que aparece nas referências da literatura de cordel, revela-se algo precioso. A identidade se apresenta como superposição de cascas, sendo a sua definição resultante da somatória encontrável no produto final. Ele assumiu a identidade do outro e a identidade enquanto outro; a aparente e a latente. Ele tem ou pode ter consciência de sua história e ao mesmo tempo pertence também a outra faceta da História, aparentemente a outra História. Ele tem aspectos particulares, familiares, coletivos e aí de diversas coletividades de origens diferentes.

            Neste cadinho, que não mistura bem os componentes, revelando as diferentes partes, notamos dois movimentos: um, para trás, para o passado ancestral e familiar, para as origens – e outro para a frente: para o futuro, na esperança da Terra Prometida, do Messias, do povo reunido, da bem-aventurança.

            Triste e alegre, voltado para o passado de sofrimentos ou para o futuro de exaltação, tendo feito a aprendizagem do compromisso, sem ceder ao reconhecimento de sua origem, secretamente resistente, aparentemente covarde, poderia esta descrição ter relações com a do homem cordial? Se a resposta for sim, ou mesmo 'parece', isto quereria dizer que muito da chamada identidade do brasileiro, tal como definida por Sérgio Buarque de Hollanda, seria devedora da formação do povo brasileiro, no início feita de hereges exilados. E as marcas poderiam ser vistas como positivas, mas receberam uma leitura negativa, tal como é descrito por Albert Memmi, em Retrato do colonizado precedido pelo retrato do colonizador[9].



[1]. Zweig, Stefan. Brasilien. Ein Land der Zukunft. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1984.

[2]. "Os judeus no Brasil" In Francisco Corrêa Neto. Os judeus: povo ou religião? Rio, 1987. Erca. Ed e Gráfica, pp. 68-74.

Alcambar, José. O estatismo e a Inquisição – Imprensa Douro, Régua – 1956, p. 22 e Antônio José Saraiva. A Inquisição Portuguesa. Coleção Saber. 1ª ed.

Ambrósio Fernandes Brandão. Diálogos das grandezas do Brasil. (1618). Rio: Mundos Editora, s/d.

Egon e Frieda Wolff, do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil – Dicionário Biográfico

II - Judeus no Brasil - séc. XIX - Rio, 1987 - Bibliografia interessante

III - Testamentos e Inventários - Rio, 1987 5º centenário da edição do 1º livro em Português - O Pentateuco, em hebraico, por Samuel Gacon.

IV - Processos de naturalização de israelitas - séc. XIX. Rio, 1987.

Laura de Mello e Souza. O diabo e a terra de Santa Cruz. Feitiçaria e religiosidade popular no Brasil Colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.

Omegna, Nelson. Diabolização dos judeus: "Martírio e Presença dos sefardins no Brasil colonial." Rio de Janeiro: Record, [c.1969]

Salvador, José Gonçalves. Cristãos-novos, jesuítas e Inquisição. Aspectos de sua atuação nas capitanias do Sul, 1530-1680). São Paulo: Pioneira/Edusp, 1969.

[3] F.S. Negro você me parece / que foi materialista / desses que só dão valor / no que pega e está na vista / protesta toda verdade / difamador anarquista. (Arêda, Francisco Sales. À malassombrada peleja de Francisco Sales com o Negro Visão. Recife: Ed. Luzeiro do Norte: 10).

[4] Protestantes escandalosos / nova-aceitas amancebados / daqui pra 85 / tem que ser todos queimados / mentirosos e feiticeiros / jogador e cachaceiros / do mapa serão rasgados. (Assis, Manoel Tomaz de. O fim do mundo está próximo. (Condado - Pe. ?): 07.

[5] J. - Sofreu o velho Abrahão / Jacób, Jonas e Afares, / Tobias e Manacés / sofreu Felipe e Simão / sofreu Moisés e Arão / muito mais Jesus sofreu / tudo por nós padeceu / todos lhe fizeram guerra / porem aqui nessa terra, / ninguem sofre como eu. (Carlos, José (Fernandes). Peleja de José Carlos com Manoel Tomaz de Assis).

[6] E assim vivia o povo / no regime dos judeus / sem fé, sem religião / igualmente aos ateus / lá não se via ninguém / falar no nome de Deus. (Sobrinho, Joaquim Luiz. (João José da Silva - ed. prop.). Um milagre de Santo Antonio com uma moça velha. Acróstico: Joaquim: 04).

[7] Rezou o Credo ao contrário / avessou o cabeção / fez um cruzeiro na testa / e um sino Salomão /

trouxe uma caranguejeira / amarrou numa ponteira / e pendurou no fogão. (Silva, José Bernardo da. Descrição das mulheres conforme seus sinais. Continua: Lampeão e a velha feiticeira. Juàzeiro do Norte - Ceará: Tip. São Francisco, 16.03.63: 11)

[8]. A chama, ou o fogo, como ameaça de punição, não decorreria justamente do castigo imposto pela Inquisição? Afinal, na Divina Comédia, de Dante Alighieri, o Inferno tem - n - variedades de castigo, que não só o fogo, ou fundamentalmente não o fogo. O "espeto quente", o fogo, contido na explicação de Sinhá Vitória ao filho mais novo, em Gracialiano Ramos, Vidas Secas, não poderia ter tido origem nesta punição com o fogo? Na associação entre punição, inferno e fogo inquisitorial?

[9]. Memmi, Albert. Retrato do colonizado precedido pelo retrato do colonizador. Trad. Roland Corbisier e Mariza Pinto Coelho. Prefácio de Roland Corbisier. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.